A VIDA É UM OCEANO – por Anna Miranda

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No vai e vem constante, a vida se eleva nas ondas e se esparrama na espuma da areia. Esse movimento de ir e vir num desmanche que pouco ou nada tem a ver com nossos desejos é cósmico.  Só sabemos como nascemos. O resto quem cuida é o imponderável. Uma onda de casamentos que aparentemente são eternos pode se dissolver. Uma onda de sonhos pode ser trocada por outra, e os sonhos tomam nova forma. Uma voz que não parava de falar pode calar-se, uma fonte que jorrava pode secar, um rio escaldante pode gelar, uma fogueira de paixões pode apagar. Sim, porque a vida dói, e a dor nem sempre é suportável. Mas nós temos uma capacidade absurda de resistir e de se reinventar.

Resistência, resiliência e reinvenção são as palavras que transmutam nossas vidas, num continuum. É preciso ter consciência de que somos seres energéticos e que a onda do ir e vir é sabedoria. É aprendizagem. É deixar morrer pra viver de novo. Hoje é o meu aniversário e estou nascendo outra vez. Quem sairá dessa casca? A mesma Anna e, no entanto, não mais a mesma. Nascemos várias vezes na vida, mas em determinado momento nosso nascimento é renascer das cinzas, é deixar para trás o que não faz parte de nós, é buscar novas alternativas de ser quem somos no presente e não no passado. Somos seres viajantes e carregamos fardos, malas, baús de coisas que emperram e entortam o corpo por causa do apego. O apego é sempre um problema; levamos anos e anos para nos desapegar do que já fomos, do que morreu, mas o esqueleto está grudado em nossas costas.

A consciência é o brilho que nos faz perceber. A consciência é o fogo perene revelador. Ter consciência do que somos e do que ocorre ao nosso redor é um fiat necessário, mas é preciso ir mais longe, a consciência tem um movimento de expansão constante, com ela podemos ir mais fundo a ponto de saber o que a vida quer de nós e o que podemos fazer para fluir, naquele ir e vir das ondas do oceano. Temos um lado esquecido: o subjetivo, o que fica lá longe, o que fica escamoteado e camuflado em nós. Não é fácil ser um ser humano: não somos sós o que vemos em nós e nos outros. Podemos fluir. Mas para fluir nesse continuum, haja mala pra deixar cair das costas! Não podemos fluir sem morrer um pouco. E a onda leva pra longe e nós gritamos não, não, não quero que a vida me roube algo tão caro, o que é que eu vou fazer agora? Só com o passar do tempo e com o brilho da consciência sem apego podemos ver que o que perdemos foi nada.  Na verdade, ganhamos. O esqueleto, a mala e o baú desapareceram no limite onde o mar se funde com as emanações do infinito.

Nosso planeta e seu barulho insistente, a televisão, a internet, as vozes sobrepostas numa torre de babel contemporânea, nos impedem de ouvir o silêncio. O nosso silêncio. É por isso que gostamos de ficar sozinhos à beira-mar. A natureza nos ajuda a nos conhecermos melhor. Encontramos uma concha, uma pedra, nossa, ela veio para nós! O fim de tarde está mais belo, o sol se põe em várias cores, três luzinhas brilham lá longe! São casinhas? Quem mora nelas? Podemos ir até lá, sentindo a areia espumada salgando as pernas. Ou ficar contemplando o mistério de estar viva e em movimento, buscando nossas próprias respostas.

Não podemos evitar a morte inevitável, mas podemos perceber que as nossas pequenas mortes não são nada diante dela. E que é preciso morrer pra nascer. E que é preciso fluir no ir e vir das ondas, e que somos unos com a natureza. Se tivéssemos plena consciência disso, se todos nós cultivássemos o brilho da consciência em eterna expansão, não viveríamos num planeta devastado pela ganância do falso poder: um poder que desintegra e destrói nossas riquezas naturais e despreza os habitantes originários e sua herança ancestral.

Viemos do mar, da terra e do ar, temos um fogo que nos leva à ação, somos completos na nossa incompletude. A onda do mar leva, a onda do mar traz e apesar do oceano de dúvidas, erros e equívocos que nos persegue, podemos ser quem realmente somos e aqueles que nos amam entendem isso muito bem.

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