Alegrias imaturas, alegrias prematuras – por Clarissa Vilar

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Foi muito comentado quando um apresentador de programa perguntou a uma esportista tetraplégica se pelo menos não doía quando lhe tocavam o corpo. O cidadão foi altamente crucificado. Como se diz por aqui, foi “pego para Cristo”. Acredito que sua pergunta foi feita com boa intenção, mas é interessante observar como as pessoas geralmente, de início, só pensam o pior em fatos assim.

Não nasci para provocar ou julgar ninguém. Minha vida não tem esse sentido. Não preciso desempenhar esse papel. O mundo não é palco de ninguém. A plateia pode ser traiçoeira. Alguém que ri da desgraça alheia não merece respeito. Alguém que ri do que não é da sua conta não saiu da infância.

Sim, porque é na infância que nos é mais permitido errar. “Ah! Fez isso porque é criança” soa como aceitável e desculpável. Mas ainda não é. Temos o direito de errar, mas a obrigação de pedir desculpas. É o mínimo. O máximo pode ser utopia, algo inalcançável.

Prefiro as alegrias prematuras, que nascem antes do tempo que as esperamos. Uma inspiração inesperada, uma música inédita no rádio, um elogio surpresa, uma viagem de última hora, um amor adiantado, o trabalho adiantado, o salário adiantado.

Rir da desgraça alheia, ter satisfação com isso é um tipo imaturo de vingança. Porque a melhor vingança é a benevolência, ainda que difícil em certas horas. É a mais correta, a mais ética. Acredito que Deus se encarrega do resto.

Alegrias prematuras nos fazem sentir crianças de novo, sem culpa, sem consciência pesada. Simplesmente alegres. Finalizo esta crônica com uma poesia de Bertolt Brecht:


Aos que vierem depois de nós

 “Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

(…)

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