Artista, sim, e com Amor! – por Christina Rosa

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Fonte da imagem: Soy de cielo y tierra, Monica Fernadez

Quando criança, queria ser dançarina, apresentadora de televisão, cantora… e até que tentei! Ensaiava com minha prima, no quarto da frente do sobrado em que ela morava. Pegava um lençol para ser vestido longo e uma escova de cabelos para microfone, e cantava… Penso que a Catarina nunca soube bem o que eu estava fazendo. Crianças são encantadas mesmo.

Somente na adolescência descobri não ter vocação para cantar… e junto com o canto foram-se as outras possibilidades artísticas também. Graças aos céus não tenho trauma dessa descompatibilidade entre sonhos e realidade.

Desse modo, parti para a fase adulta com o intuito de ser uma profissional “normal”. A faculdade me treinaria…

Casei e descobri que teria que aprender a ser dona de casa. Que faculdade ensina isso, minha gente?! Resolvi extrair, então, da criatividade, a minha performance.

De início, desejei ser a Ofélia, aquela da “cozinha maravilhosa”. Juro! Fazia de conta que estava sendo filmada quando preparava a comida. Tá, dependia do meu humor, e até que me divertia. Depois, comecei a prestar atenção em como minha sogra cozinhava. Sentava na cadeira ao seu lado e ficava perguntando por que procedia dessa ou daquela forma, ou quanto tempo levava para cozer aquilo outro… (saudades daquele tempo). As cunhadas também foram minhas professoras. Agradeço a elas pela paciência.

Hoje, já consigo dar aulas de culinária, mas não quero noras para ensinar, ainda não. Já possuo algumas teorias sobre o preparo de comidas caseiras, claro, não tenho paciência para as mais sofisticadas e minha criatividade não deixa que eu faça uma receita sem mudar o script. Portanto, desisti de fazer receitas de catálogo. Minha comida tem jeito, sabor e identidade de Christina Rosa.

Dia desses, um amigo que mora no Chile solicitou ajuda para a preparação de um prato tradicional brasileiro, ele em Santiago, nós, as amigas, em Palmas. Passamos os ingredientes, as etapas de preparação, e achávamos que estava completa a nossa “assessoria” ao dileto amigo. Mas, não dado por satisfeito, o rapaz solicitou a última ajuda: “como sei que está pronto?”. Não exitei e respondi: “quando estiver cheirando!”.

Foi assim que comecei a relacionar meus princípios culinários. Os leitores devem ter suas próprias formas de preparar um menu, mas resolvi elencar as minhas.

O primeiro ditame é que comida boa é a que cheira, por isso refogo bem os temperos – cebola e alho crus não temperam bem; Arroz soltinho faz-se com pouca água e em fogo baixo; Limão é o rei da salada; Azeite combina com tomates e peixes; Gengibre no suco é um bom adstringente; Purê com queijo é delicioso; Canela é uma especiaria sofisticadíssima; O talo do coentro concentra mais sabor e aroma que as folhas; Cebolinha e coentro tem sabor de comida caseira; Creme de leite é pop demais; Manteiga é ingrediente de primeira categoria; … Domingo é dia de cozinhar com um copo de cerveja ou um cálice de vinho à mão… Ah! este último item é procedimento.

Dito isso, é bom ressaltar que ser Ofélia ou qualquer outro MasterChef também não faz parte da minha aptidão. Cozinhar é sempre uma atitude divertida, mas não poderia ser minha profissão. Nesse quesito, não consigo ser aventureira, só coletivizo quando tenho certeza quanto ao sucesso das receitas. Assim, os amigos vão escapando das combinações impróprias que experimento na cozinha.

Mas aprendi a melhor lição para minhas aventuras ao fogão, olhando as cozinheiras mais humildes: a simplicidade é um excelente condimento. Aliar ervas, sal ou açúcar, hortaliças e legumes com parcimônia, processá-los no tempo certo, combinar gostos e aromas, é ciência e um ato de amor que vai direto ao coração de quem degusta. E que sensação!

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