De açúcar e outras branduras – por Clarissa Vilar

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Foram 26 anos tomando suco de frutas, achando que estava livre de qualquer mal. Foram 26 anos sem remorsos, até que, num belo dia, descubro que o suco da fruta não tinha mais as fibras, só a frutose (açúcar). Agora as fibras de colágeno e elastina da minha pele, que estudei na bioquímica, iriam se deteriorar mais rápido. “E agora, doutora?”, perguntei aturdida para a nutróloga.

 “O jeito é comer só a fruta”, ela respondeu. Aí já é pedir demais! Sempre preferi qualquer fruta a refrigerante. Este último só tomo quando é o jeito. Atire a primeira pedra quem nunca se encheu de fast-food meia-noite, quem nunca se refugiou em uma lata de leite condensado ou em um bolo. Como bons cristãos, podemos fazer as pazes até com a comida.

Diante de todo esse açúcar, lembrei que, num fim de tarde em uma praça de Madrid, fui tomar um sol que insistia em aparecer em pleno fevereiro. A praça ficava em frente a uma igreja que eu ia de vez em quando, na frente do meu prédio. Sentei do lado de uma senhora que, se não me engano, estava dando comida para os passarinhos. Conversa vai, conversa vem, eu disse que era do Brasil. Ela então disse: “Conoci uma mujer de Colombia una vez. La persona más dulce que yo he conocido”.

Outra vez, no aeroporto de Barajas, em Madrid, perguntei por que eram tão zangados, mas me faltava a palavra. “Enfadados…”, disse a atendente.

Em Londres, durante um intercâmbio, lembro-me da professora de inglês comentando da nossa alegria. No livro Felicidade S.A, o autor dedica um capítulo inteiro à questão do borogodó brasileiro. Uma amostra da nossa energia de viver, mesmo imersos em tantos problemas. De onde vem tanta  doçura? Tanta alegria?

Gente doce, para mim, sorri sem motivo, tem sempre uma palavra amiga, simpatia genuína, bondade natural, educação plausível. Cecília Meireles, em sua poesia “Reinvenção”, diz que a vida só é possível reinventada. Concordo. A reinvento todos os dias, mesmo sabendo que, no final, teremos o mesmo destino. Tento não perder o açúcar dos dias, das horas. Também tento não ter diabetes de tanta alegria, em certos momentos. Doces, no Brasil, tem aos montes. Desde o doce de limão, de jabuticaba, além do pé de moleque, quindim e cocada. Acredito que, em tempos tão difíceis, o sorriso brasileiro vem da esperança. E a esperança, em conserva, não perde sua doçura nunca.

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