ESTILHAÇOS MIDIÁTICOS – por Anna Miranda

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Houve um tempo em que a revista “O Cruzeiro” era ridicularizada. Um humorista conhecido dizia que a revista era a única publicação impressa com cocô.  Não discordo de todo, até porque o papel era barrento, cor de cocô mesmo. Quem preferia outro aroma abria as paginas da Manchete ou dos Fatos e Fotos, havia opção para aqueles que enchiam os olhos de socialites e novidades. Porém, nessa bolha perversa que estamos vivendo, a mídia impressa desapareceu para dar lugar ao terror da mídia digital. Notícias não são notícias: são repetidos festivais de medo, ameaça, insegurança, barbárie.  Troque o canal! Veja outra coisa! Nada disso existe.

 Estamos condenados a assistir, impotentes,  reportagens sobre crimes para todos os gostos e paladares. Essa é uma vibe vampiresca, suga o sangue, esvazia a esperança.  Não por acaso  a depressão, o descaso, a indiferença, a loucura desenfreada toma conta do mundo.  Não podemos optar, não podemos escolher, não podemos fugir e se somos mulheres é ainda pior: nosso ex pode nos ” deletar” porque usamos batom , saia curta,  ou pelo simples fato de  aguentarmos o tranco e seguirmos em frente de salto alto. Sem eles,  que, inconformados, dizem que mataram suas mulheres por causa do fim da relação.  Mas que grande novidade! Assim segue a caravana dos horrores.

Há algo terrível acontecendo e temo que fique ainda pior. Falta amor, falta tesão, falta olho no olho, falta proximidade, falta cheiro, falta um tempo para esquecer, falta silêncio.  Falta cheiro de gente, falta cheiro de mato. Falta sabor de coisas simples. Saudades do tempo em que uma revista era impressa com cocô.  Melhor do que com sangue, fake, estupidez e uma violência desmedida.

A vibe vampiresca  ataca os avisados e desavisados, ora, pensam eles, é isso que dá ibope, dinheiro, prestígio, visibilidade. Vi uma pretensa e conhecida modelo (ou é atriz) concedendo entrevista sobre o estupro que sofreu aos 13 anos. Parecia orgulhosa de poder aparecer na tv,  mesmo a custa de um estupro ocasional, que não foi tão dramático assim. Saudades do tempo em que as coisas tinham vida, sentido e respeito. A morte nos rondava como sempre, mas se não gostássemos do verde  escolhíamos o azul, se alguém nos jogava os pés, se alguém nos ofendia ou abandonava não saíamos por aí para ceifar a vida de ninguém. Se houvesse chance, uma boa conversa resolvia. Se houvesse um encontro, tomávamos um drink com cereja vermelha.  Lavávamos a roupa suja e colocávamos no varal para secar. Sem uma gota de sangue, sem corpo estilhaçado, sem revólver, sem medo.

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