Juliana Fiúza estreia no @portalmempi: A vida como uma obra de arte

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Sentada na areia da praia no meu último dia em Goa (Índia), eu observava as ondas que ia e vinham, com o sol alaranjado se pondo como poderoso pano de fundo. Um vento constante mas suava penetrava todas as minhas resistências. Momentos que aqueciam o coração.

Goa era quase um pedaço do Ocidente nas terras exóticas da Índia, um lugar em que os nomes dos restaurantes me lembravam a todo momento da terra em que nasci, dos meus familiares e, assim, da minha caminhada até chegar ali.

Os olhos estavam marejados. Quando eu piscava, sentia hora ou outra, uma lágrima escorrer pelo meu rosto, como gota de orvalho. Orvalho Sagrado. Muitos quilômetros me separavam de casa. Não só os quilômetros de mares e estradas, mas naquele lugar o que se fazia mais distante era o entendimento sobre a própria vida – agora tão diferente.

A minha estadia na Índia – que já contavam mais de 6 meses – havia tocado meu coração profundamente. Entre a pobreza e sujeira aparentes aos olhos desatentos, entre o caos do trânsito e das buzinas sem fim, eu havia encontrado beleza e paz como em nenhum outro lugar. Eu encontrei inspiração.

Eu sentia a terra viva debaixo dos meus pés, como uma mãe que sustenta, nutre e respira. A cultura e a devoção de um povo que atravessou seculos e colonizações carregando com amor seus costumes, seus rituais, sua forma peculiar de ver e abraçar a vida me mostravam verdades sobre mim que jamais eu havia percebido antes. Ninguém tinha pressa para ser nada além do que eram ali.

E eu estava ali, sentada, olhos marejados, observando as ondas, enquanto respirava profundamente, sentindo o viver nos meus pulmões. Sentindo-me pequeninha no meio daquela dança entre o vento, meus cabelos, movimentos de nuvens e pessoas que passavam. Sentia-me pequena e era tão pequena que cabia nas mãos da vida  e assim, sentia-me em paz.

Qual seria o propósito da vida senão chorar quando assim o coração pede? De apreciar e contemplar pores do sol, sentindo a gratidão preencher todas as células do corpo?  Qual seria o propósito maior que viver?

A vida para mim era como uma grande tela, um caderno em branco, e todos os meus movimentos, meus passos, caminhadas e até mesmo as vezes em que perdida me sentia, eram pinceladas, poesias que meu viver desenhava.

Era isso que eu queria ser. Uma obra de arte. Transformar minha vida, cada momento, por mais singular ou rotineiro que fosse, eu queria transformar em obra de arte.

E era isso que estava fazendo.

Chorando de amor no por do sol, transbordando, sentindo-me em paz. Esquecia-me das minhas exigências internas, muitas vezes tão duras. Esquecia-me da pressão por mudar o que quer que fosse. Tudo estava perfeito. As obras de arte e sua beleza se apresentam de modos únicos e surpreendentes. As vezes nos fazem sorrir, noutras, chorar. Tudo bem. Chorar não é divino? Olhos se transformando em rio?

As pressões se aliviaram no meu coração e ali entendi que nada haveria para ser completado, mas sim, aproveitado. Nenhum plano, nenhum projeto era maior que meu próprio existir. Que todos os momentos, mesmo os de trabalho, mesmo o simples acordar e cuidar das plantas, eram minhas obras de arte, minha própria experiência, meu propósito.

E era assim que eu queria viver. Viver sem propósito. Como quem dança, que dança sem nenhum propósito, mas porque assim o coração pede, dança porque ama.

Vivo porque amo. Escrevo porque amo. Caminho nesta terra e abraço os que encontro, porque amo. Compartilho, porque amo o compartilhar. O mundo nos foi dado para isto, como podemos não perceber?

O propósito da vida só pode ser mesmo viver.

 

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