Mamãe, vou brincar com o seu celular! – por Christina Rosa

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Ser modelo de comportamento não é nada fácil, principalmente quando a tendência é fugir às regras… quem nunca? E em se tratando da permanente relação entre adultos e crianças, há que se considerar certo grau de dificuldade na manutenção da conduta exemplar. Os pequenos simplesmente costumam registrar e arquivar na memória tudo aquilo que lhes é significativo.

Bem, confesso que sempre que cometo uma leve escapada das normas morais ou da ética fico com a sensação de ser um pouco mais humana. Verdade! Daí penso que o bom mocismo é bastante tedioso. E creio não ser ímpar nesse quesito.

Ainda assim, transgredir é complicado quando levamos em consideração a coletividade. Por em risco algo que envolva os outros não é uma atitude louvável do ponto de vista da cidadania e da solidariedade. Não estou falando nenhuma novidade, não é?

Refiro-me a pequenas faltas como: não desligar o celular no cinema; falar que está doente, quando na verdade, não quer ir a um evento; fingir que gostou de algo que a amiga tanto defende, somente para não se alongar num assunto… Confesso que isso me deixa mais cúmplice de mim mesma. É um segredinho particularíssimo para guardar. E considero que admitir deslizes como esses, contrariando aquilo que os bons costumes e amigos defendem, é um ato de bravura. (Faça de conta que tem aqui um emoji sorridente com óculos escuros).

Mas, voltando ao tema “padrão comportamental”, a situação é exata como dois e dois são quatro: As crianças tendem a reproduzir com maestria o que os pais fazem com frequência e descuido. O mais interessante é que retiram os possíveis ruídos do que lhes chamam atenção ou daquilo com que convivem, e, sem subverter o sentido, demonstram o lado mais verdadeiro do que copiam. Eles nos matam de vergonha exatamente pela sinceridade e desenvoltura ao expor nossas “falhas”, por assim dizer. Nossos filhos costumam levar a sério nossas piadas internas. E longe de serem desprezíveis, são adoráveis exatamente por isso.

“Mamãe, vou brincar com o seu celular”, foi o que chamou minha atenção no último domingo, em um restaurante. Corri a vista procurando de onde tinha saído aquela vozinha melodiosa. Encontrei à minha frente duas crianças e uma adolescente sentados à mesa… A mãe, a certa distância, olhou rápido, desaprovando a interrupção da harmonia sonora do lugar.

“Ouviu, mãe? Vou pegar seu celular!’’ Ratificou a linda criatura, e num átimo de segundo pegou o engenhoso objeto para deleitar-se. O fato é que o pequeno menino cumpriu a norma, certamente pré-estabelecida, de avisar que estaria quebrando uma regra. Para ele o importante foi registrar o feito… e isso me deixou a agradável sensação de que vale à pena ser humano.

Christina Rosa de Aguiar

Christina Rosa de Aguiar Graduada em Letras, Designer e Arte-finalista.

 

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