Noutras palavras sou muito romântica – por Anna Miranda

48

Foi decretado não se sabe por quem que os sonhadores e os românticos estão extinção. Não é de espantar: o mundo contemporâneo midiatiza tudo, quem quiser sonhar sonhe com um carro esporte, um celular caro (para ser roubado), sonhe com a casa dos seus sonhos, não o sonho das pessoas, mas o sonho de encher os bolsos de dinheiro de quem vende. Somos fabricados em série numa fábrica de bonecas e bonecos iguais e, portanto, não pensamos, nem sentimos: somos a cereja do falso bolo, a novidade repetida, a imitação entediante, enfim, somos as ovelhas seguindo a mesma trilha que não leva a lugar algum. Os sonhadores são as ovelhas negras, mas, de acordo com o andar da carruagem, estão condenados a viver com a cabeça na lua, nada mais que isso. A ovelha negra da Rita Lee foi para o rebanho e não voltou.

A mesma coisa acontece com os românticos: ora, isso não existe mais. Antes do Lulu Santos dizer que era o último romântico, os seresteiros, chorões e cantores de boleros já exalavam um cheiro de coisa antiga. Romântico? Só se for no palco cantando algo mais sofisticado para vender milhares de discos. Ou fingir romantismo com as letras das incontáveis duplas sertanejas com o mesmo propósito: ficar rico.

Acontece que os sonhadores existem e os românticos também, e não é tão fácil arranca-los da cena porque eles são assim mesmo, e não pretendem mudar. Sabem que sem eles seria impossível encarar um mundo cheio de dementes. Os sonhadores são o próprio sonho: é o bolo, a cereja, a ovelha negra, a boneca diferente, o verso livre, a música da alma, a reinvenção do cotidiano, a revolução eterna e perene que transforma tudo que toca. É esse inconformismo e rebeldia que os torna tão especiais e necessários, não deixando o mundo pálido, manco, estanque, vazio. São os sonhadores que mudam o mundo por dentro, eles não estão preocupados com a fachada, mas com o conteúdo e as inúmeras possibilidades de mudar aqui, ali, acolá, mais ali, mais adiante.

Os românticos são mais ou menos a mesma coisa: sabem que são assim e não vão fingir que são modernosos, robotizados pela mídia escandalosa e fria, não vão deixar de ouvir Valdick Soriano ou Nana Caymmi porque é brega, porque é bobagem pensar em ter um amor de verdade, fora da estante virtual de amores de mentirinha. Hoje é meu aniversário e escrevo essa crônica com muito orgulho de ser uma sonhadora/romântica ou vice versa, desejando a todos os casais que dançam colado e juntinho um belo drink, uma ótima noite de amor e muita

Sonhadores e românticos, meu abraço apertado, minha solidariedade e meu apreço. Uma flor vermelha aciganada, muito carinho e sensualidade a todos vocês.

Resultado de imagem para por anna miranda

Deixe o seu comentário