Outras viagens – por Clarissa Vilar

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“A gente não quer só comida

A gente quer comida, diversão e arte

(…)

A gente não quer só comer

A gente quer prazer pra aliviar a dor

(…)

Você tem sede de quê?

Você tem fome de quê?”

Titãs

Qual o remédio para a dor de uma perda? Qual o produto que relaxa uma consciência conflituosa? Em qual prateleira fica a solução  para seu ciúme? Qual maquiagem esconde sua vaidade? Qual a marca da bebida da sua paz?

O livro “Marketing existencial”de Luis Felipe Pondé foi um dos que mais prendeu minha atenção nos últimos meses.Uma verdadeira chacoalhada na alma e uma prova de que a Filosofia esta viva e ainda pode nos ajudar. Sobre a produção de bens de significado, fala como o marketing existencial  cria produtos para suprir a falta de sentido da vida, questão cada dia mais pertinente nos tempos atuais e que foi debatida por filósofos como Kierkegaard e Sartre ao longo da história.

O livro é um prato cheio para quem é fã das teorias humanistas, feito eu. Lembrei de uma mini-série chamada ” Os experientes”. Logo no primeiro episódio, uma senhora de meia-idade que achava que não fazia mais diferença nenhuma na vida, se revela em um assalto à banco. Ou seja, não foi um bem de significado que preencheu seu vazio. Foi uma experiência.

Segundo o autor, todo marketing é amoral, pois no fundo não esta preocupado de fato com o cliente, mas em  identificar desejos e criar produtos para atender esses desejos. E vender, claro.

Viagens, carros de luxo,experiências de autoconhecimento e desapego.Todos os bens de significado e o mito do bem estar são abordados de forma instigante.

Me chamou atenção a parte que fala das viagens, pois sempre gostei de viajar. Perto dos 30, depois de quatro intercâmbios, me peguei certo dia preferindo minha cama e minha paz. Penso que prefiro outras viagens, de preferência a interior. Ainda valorizo demais a praia de todo ano, a rede de frente pro mar.

Mas um produto de graça, que o marketing existencial nunca vai produzir vai ser o gosto da sua vida. Salvei a patente da minha. Salve a sua. Vai por mim. Deslocar-se para respirar ar puro já é outra coisa.

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