UMA MÃE MICROSCÓPICA, Graças a Deus! – por Patricia Mellodi

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Sim, eu fui, eu sou, e acho que sempre serei uma mãe chatérrima, dessas que não deixa passar nada. Às vezes eu deixo, com muita dificuldade, mas só em casos leves e sem grandes consequências. Não, não quero ver filho mal-educado, sem etiqueta social e familiar (isso inclui modo de falar, de tratar as pessoas, de respeitar os territórios alheios, o modo de sentar à mesa, de arrastar o chinelo e outros exageros), nem admito filho malnutrido, tem que comer banana! Rs! Nem filho “mal amanhado” sem conveniência ao se vestir, nem filhos superficiais e de valores consumistas e norte-americanos. Sim, em matéria de maternidade exijo doses altas de brasilidade. Afinal, somos brasileiros. Globalizados tudo bem, faz parte, mas não suportaria conviver com filhos importados. Como diria Fernando Pessoa: Minha pátria é a Língua Portuguesa. Mas isso é questão de pátria, e é pessoal e ideológico.

Sou chata, e é provável que às vezes, insuportável. Mas nunca gostaria de ver a vida ensinar para os meus filhos de forma rude, o que eu poderia e deveria ter ensinado com amor e carinho e exemplo. Portanto, se fez feio, eu falo na hora. Clara gosta de me dizer que sabe quando engordou, pois, eu nunca deixaria de falar para ela. Se eu não falo, ela tem certeza que está bem. Fico orgulhosa. Para alguns isso é o fim, uma mãe com visão microscópica, que repara em tudo e fala sobre tudo, nossa! Mas ela sabe que eu me importo com ela. E claro, sou virginiana de raiz, faz toda diferença nesse olhar. Creio que não reparar e não corrigir é abandono emocional.

FICO LOUCA com todas as letras com as mães e pais preguiçosos, que fazem mães microscópicas parecerem vilãs, neuróticas e ridículas, mães e pais que fogem do embate com os filhos, que deixam eles sem referência moral, ética e psicológica, abandonados à própria sorte da sua experiência social. Míopes que não veem os filhos, não querem ver, passam a mão na cabeça quando eles mereciam uma chamada séria. Mas admitir que o filho errou, enxergar esse erro e reconhece-lo, é admitir o seu próprio fracasso, e o orgulho impede certos pais de colocar sua visão para funcionar. É melhor fingir que não viu. É melhor fingir que não falhou. Aliás, é melhor deixar quieto, falar do filho é falar do pai.

O problema maior é que essas crianças crescem, viram adultos fortes, e vão para o mundo com a empáfia dos intocáveis, dos irrepreensíveis. Aqueles que não tem em casa o exercício da crítica positiva e amorosa, certamente reagirá mal a tudo que lhe for contrário a sua vontade, aos seus pensamentos. E claro, sofrerão muito, e farão sofrer mais ainda. Veja aí exemplos de homens poderosos que são mais ego que gente, sem compaixão alguma, sem autocritica nenhuma.

Como uma mãe de visão celular, eu também vejo pais e mães que querem repetir os padrões da sua infância em seus filhos. Para que nada fuja do seu controle, tudo fique como sempre foi. Eu já fiz isso algumas vezes, mas me arrependo quando me escuto, quando escuto a minha avó falar pela minha boca. Ela também dizia coisas maravilhosas, mas é preciso contextualizar nossas falas afetivas com o tempo atual. Um exemplo prático e engraçado é quando queremos que os filhos aprendam a decorar a tabuada, lá vai um, sobe dois, noves fora nada. As coisas mudaram, as técnicas avançaram, as ciências humanas evoluíram, e às vezes nossa interferência antiquada recheada de desconhecimento enferrujado atrapalha o aprendizado, a vida social dessa criança, o futuro do planeta, e o pior, eles percebem que estamos velhos e ultrapassados e passam a não nos ouvir mais. Essas crianças são espíritos superiores…, mas isso é outro papo.

É preciso ampliar, é preciso reciclar, mudar o discurso e ouvir, mas que nunca ouvir. O mundo mudou e não tem quem segure essa mudança. Sim, vai haver muito embate, até guerra, mas a mudança já chegou. Devemos exercitar a autonomia, o pensamento crítico, o respeito às diferenças. Nós temos que seguir com o fluxo da evolução. É nessa hora que ao invés de ensinar, nós aprendemos. Quem não anda para a frente, anda para trás.

Clara com sua verve feminista, poética e inconformada me fez ver muitas coisas de outro jeito, vive me alertando para os meus preconceitos, linguísticos inclusive. E nessa hora eu de mãe passo a aprendiz.  Ela me faz me olhar como parte integrante do universo, me faz fazer as pazes com o meu corpo e ser mais colaborativa, a Nina com sua perspicácia e seu coração cheio de misericórdia, me faz ser menos exigente com o ser humano, e mais generosa. E assim, de mim para elas, delas para mim, vamos nos construindo. Nem sei se o que ensino chega aos pés do que aprendo, mas não me faço de rogada, assumo o papel que me foi confiado, com crítica, amor, visão e atitude.

De célula em célula, de neurônio em neurônio, de caso a caso vamos nos tornando gente. Porque gente é outra coisa. E acho que é do micro para o macro que se faz uma verdadeira e efetiva mudança. Ensinar e aprender a olhar no olho, a pedir desculpa, a ser gentil desinteressadamente pode ser o início de uma nova vida.

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