Voltando pro meu lar – por Patricia Mellodi

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Diz o poeta: “estamos sempre voltando pra casa”,  e hoje percebo que dessa máxima ninguém foge. Chegamos no ponto do “grande retorno”, e  ele é preponderante, as vezes, assustador. Fugi de mim por muitos anos, queria ser livre dos antepassados, das penúrias emocionais e materiais,  da província e das suas idiossincrasias, das histórias de amor com sotaque, de qualquer coisa que me fizesse olhar pra dentro de mim, pra trás. Quis pular etapas, quis cenários distantes e nevados, quis realidades brilhantes e inatingíveis, quis ouvir outras escalas e ritmos. Quer saber, nem mesmo sei se quis isso tudo ou fui levada por cansaço. Amei,  de verdade, e me dei demasiadamente ao estrangeiro como a uma família. Supus na minha inocência e soberba que podia ser uma estrangeira legitima, dei meu sangue, minha voz, mas isso nunca aconteceu de fato. Na terra alheia sempre serei visitante, na família alheia sempre serei agregada, na fartura alheia serei uma desconfiança, um fardo, no palco alheio, uma coadjuvante, necessária, importante, aquela que passa a bola pro artilheiro, mas ai de mim se brilhar demais, se resolver chutar pro gol, se não servir ao interesse dos protagonistas.  A minha fome ninguém sente.  A minha dor não dói em ninguém. E tudo bem.

 Por isso hoje volto pro meu lar, pra minha estrada, não por uma escolha, foi a vida, o imponderável, foi  a duras penas, dói voltar pra casa, dói,  mas é bom, é algo que todos temos que fazer. Volto um tanto desconfiada, o chassi empenado, mas muito mais sábia. A lição quando não é aprendida tudo se repete, pra que façamos de novo, mas agora diferente. Penso que no meu caso a repetição é uma oportunidade.  Sou só eu que estou vendo muita coisa se repetir? Não parece que já vimos isso antes? Quem diria que voltaríamos a esse ponto! Muitos de nós está voltando ao mesmo ponto, sob outra perspectiva, é a teoria filosófica do espiral. Mas como diz o outro filosofo:  “ninguém entra no mesmo rio duas vezes”. Lí num muro: “Repetir, repetir, repetir, até ficar diferente.”  Hoje volto pro meu lar, pro meu palco, e nesse palco eu sou a estrela. Sei que pode faltar a platéia, a produção, as maçãs verdes do camarim, mas nunca o texto, nunca o som, nunca a alma, e, principalmente, nunca  faltará a luz. Pois brilhar é função primordial de uma estrela, seja ela de que grandeza, em que galáxia, cadente, ou nova, é sempre brilho.

 Tudo está se repetindo, a mesma rua, a mesma condição, a criança, a casa, os melhores amigos… Volto pro meus amores cheios de sotaque, volto pra mim, volto pra receber, e preciso, recebo com humildade.  Não tenho móveis, nem geladeira, nem maquina de lavar, não tenho bens, joias, nem reservas no banco, sou leve e uso óculos. Aprendi com algumas receitas e fiz imensas melhorias no inconsciente, só tenho bens imperecíveis e que nem a morte há de me tirar. Volto pra mim, pra minha casa,  na base do essencial. ” Somente o necessário, o extraordinário é que é demais…” Que liberdade! Um sorriso largo dei agora. É bom não ter nada, quanto menos coisas mais livre.

 Com  muito amor e fé, cansada, mas pronta pro trabalho, certa de que só há um caminho pra mim: O meu mesmo! Seja ele qual for. Acho que nunca mais viverei algo que não seja meu, que não seja a minha realidade, com prestigio ou não, com recurso ou não, só quero hoje o meu país, a minha gente, a minha rede, a minha estrada. Sinto gratidão pela viagem ao estrangeiro, pelo o aprendizado, pelo conhecimento adquirido, pelos momentos, pelos frutos que são eternos, por tudo.  Eu aprendi muito, inclusive a olhar pra trás, pra mim, pra dentro de casa.

 Sou outra, mas sou a mesma de antes, e gosto disso. Ainda não me perdoei pelas escolhas, pela fuga, mas chego lá. Sou grata pelos conflitos que me empurraram de volta a minha estrada, ao meu útero, a minha casa da infância, pois se não fosse isso, estaria estagnada na preguiça, no conforto das almofadas da sala alheia. Sala alheia só de visita. Estou voltando pra casa, de mãos vazias e coração cheio, e quero estar viva´pra ver as voltas que esse mundo dá.

 Estou leve, não sou nada, nada invejável, não tenho nada, nada palpável,  sou só eu mesma voltando pra mim. O ser humano é mesmo esquisito, “percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta pra casa pra encontra-lo.”

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