Entrevista com Sarah Sobreira: “Não existe ninguém melhor do que ninguém pelo simples fato de ser homem ou mulher, uma vez que o quesito capacidade é que faz toda a diferença”.

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A nossa entrevistada de hoje, Sarah Sobreira, é Advogada e jornalista, sendo vice-presidente da comissão de Combate à Corrupção e à Impunidade da OAB-PI, e uma das colunistas de Empreendedorismo e Negócios do @portalmempi.

Hoje, ela conversa com a gente sobre um tema que precisamos sempre debater: Desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

E então, vamos conferir?

  1. Quais são as principais dificuldades enfrentadas pela mulher advogada no Piauí?

Além das dificuldades que todos nós enfrentamos, mulheres e homens, como profissionais, a exemplo da lentidão do andamento dos processos, funcionamento apenas de um turno no âmbito da Justiça Estadual, que é a mais concorrida no Piauí, falta de demanda de pessoal e de atualização de conteúdo dos digníssimos julgadores, nós, mulheres, como gênero, ainda temos que combatermos vários resquícios sociais, como o assédio e o machismo, que, respectivamente, tratam-nos como objetos e inferiores, sendo que uma coisa leva à outra, até porque o assédio surge do fato de achar que o homem pode tudo, como acontece no machismo. Afinal, infelizmente, muitas pessoas, tal e qual o ditado popular, levam o costume de casa para a praça.

  1. Quanto às suas experiências, acredita que ser uma mulher tornou o seu caminho para o sucesso mais difícil?

Como em qualquer área, não só na advocacia, ser uma mulher profissional é considerado como algo reacionário, a meu ver, libertador também – dada a independência que nos é proporcionada, que vem quebrando tabus e padrões. Daí, essa criação de conflito entre os gêneros, que, para alguns podem ser uma problemática, para mim tem o sentido de motivação, pois as dificuldades devem ser tratadas como impulso e, não, obstáculo.

  1. Apesar das diferenças de gênero, hoje vivemos no Brasil um momento marcante em termos de representatividade feminina nas instituições jurídicas. Temos mulheres à frente do Ministério Público Federal, da Advocacia-Geral da União, do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. Como você analisa esse momento?

Realmente, hoje temos mais mulheres do que antes no comando jurídico – ou mesmo legislativo ou executivo – no país. Porém, ainda é um número muito pouco se compararmos com o de homens que ocupam esses cargos. No Supremo Tribunal Federal (STF), há 9 ministros e somente 2 ministras, como representantes da Corte Máxima de Justiça no Brasil e, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), são 28 ministros e apenas 5 ministras. Em termos relativos, é um progresso bastante significativo de representação, o que significa que mulheres passam a analisar casos com experiências femininas, o que de certo modo, faz com que haja uma ponderação melhor quando há mulheres como partes nos processos. Mas, que em termos absolutos, precisa evoluir muito ainda, pela já dita pouca representação, sob pena de poder haver um desequilíbrio em desfavor das mulheres na hora de avaliação dos casos em concreto, que homem algum pode saber quando somos vítimas, por exemplo, de assédio sexual, que, infelizmente, tanto ocorre aqui.

  1. Qual conquista importante da mulher advogada que você gostaria de destacar?

O número de advogadas hoje é quase igual ao de homens. Isso é maravilhoso. Antigamente, só víamos essa classe de operadores de Direito do sexo masculino. O que está faltando ainda é que eles entendam que isso faz bem para a concorrência, por sermos tão competentes quanto eles. Não existe ninguém melhor do que ninguém pelo simples fato de ser homem ou mulher, uma vez que o quesito capacidade é que faz toda a diferença.

  1. No Direito, qual mulher que já lhe inspirou ou lhe inspira?

Lembro-me, ainda muito jovem, do tempo de escola, da ex-ministra do STF Ellen Gracie, indicada e nomeada pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, tendo sido justamente a primeira mulher a ocupar um dos 11 cargos da Suprema Corte, onde chegou a exercer a presidência no biênio 2006-2008. Além de competente, ela conseguia preencher um leque de características das quais muitos, se não, todos, de nós nos orgulha, como, inteligência, erudição, serenidade e discrição, além, no meu prisma, de ser muito bonita e elegante, sem querer ser superficial, rs. Resumidamente, isso representa a quebra de uma série de barreiras, visto que uma mulher interessante, em todos os sentidos, conseguiu chegar ao ponto máximo da carreira jurídica de qualquer operador de Direito, que é ser ministro ou ministra do Supremo Tribunal Federal.

  1. Para finalizar, como podemos combater a diferença de gênero no dia a dia e contribuir para uma sociedade mais igualitária?

Creio que devemos começar a tratar todos igualmente desde cedo, a partir de ensinamentos de dentro de casa. Sem essa de apenas dá conselhos, nada é mais eficiente do que exemplos. É isso mesmo, educar os nossos filhos, homens e mulheres, que todos nós somos idênticos em direitos e obrigações. Sem a tal diferenciação de que isto é para homem e de que aquilo é para mulher. Cada um que use sua liberdade, dentro dos limites do bom senso, pois, com respeito a si mesmo e ao próximo. Apenas, desse modo, conseguiremos alcançar a tão sonhada, legitimada e aclamada igualdade.

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