Na antessala-por Suzana Prado

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Trajano chegou no consultório cheio de bossa, desejava a todos um feliz 2011!! Eu estava enfrentando um doloroso tratamento contra o Distúrbio de Ansiedade, não estava fácil. Mas quem disse que seria?!  Ele olhou pra mim e me desejou o mesmo. Fiz apenas um gesto com a cabeça e dei um sorriso amarelo, afinal naquele dia estava para pouca conversa, queria ficar no meu canto até ser atendida pela minha terapeuta que era a mesma dele.

Trajano tinha jeito e pele de garoto. Usava bermuda, camiseta preta, chinelo e na cabeça, um boné, e muitas complicações que a vida lhe pôs à prova. Trajano falava pelos cotovelos, falou tanto que chegou a me irritar, porém nada comentei, apenas meu silêncio o incomodou.

É, o silêncio é o idioma mais poderoso de todo o universo, nos faz pensar, nos faz conversar com o que está oculto em nós, revela o que e quem somos.Sem contar que a prática do silêncio é uma resposta inteligente ante a inúmeras situações cotidianas. Pois então, Trajano sentou bem ao meu lado, fiquei ouvindo sua prosa com a senhora que estava do outro lado da sala. Apurei  seu vocabulário, percebendo que era um garoto de vinte e poucos anos, inteligente, consciente de seus problemas, mas totalmente carcomido por situações que não ouso citar aqui. Sim,tanta inquietação revelava um ser humano em crise.

Trajano me surpreendeu também pela leveza, pela incrível necessidade de sobreviver, de sentir-se vivo, de estar ali para curar-se de males que o afligiam, de pensar em seu futuro. Foi quando Trajano virou-se pra mim com aqueles olhos castanho amendoados e começou a falar de gastronomia, de vinho, da sua vida e perguntou sobre a minha.

Confesso que meu coração deu pulos de alegria ao ver  aquele garoto resistindo, enfrentando seus fantasmas e me dizendo subliminarmente que era possível “sobreviver”. Eu não me expus muito, mas o que mais me encantou naquele moço foi sua incrível vontade de viver.

Eu e Trajano nos tornamos ali, naquela hora, almas iguais. Senti-me um grão de mostarda, miúda, pequena diante dele, pois a gente pensa que os nossos problemas são os maiores, que a melhor grama é a do vizinho e ficamos frios diante dos problemas dos outros. Nesse dia experimentei todos os sentidos da palavra “compaixão”. Sorvei cada gesto, cada frase, cada olhar que Trajano exprimia ou falava.

Chegou a hora da minha sessão. Depois de quarenta minutos, Trajano estava lá na antessala, seria o próximo. Abrí-lhe um belo sorriso e disse um “tchau” com a essência de um abraço. Saí do consultório desejando de coração que Trajano ficasse bom logo,logo…..

 

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