Cultura da Paz e a advocacia – por Betina Costa

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Falamos, no último artigo, que o atual momento histórico abrange crises em vários contextos, ambiental, econômico, cultural e social, a níveis global e local. O futuro nunca ficou tão incerto e complexo com a instabilidade das relações humanas e o acelerado avanço tecnológico. 

Na advocacia, este novo mundo repleto de incertezas se apresenta com a tecnologia do advogado robô, as lawtechs, softwares capazes de substituir o advogado. A tecnologia da informação já é realidade, como forma de dar conta da crise pela qual passa o Judiciário brasileiro, diante da morosidade e do crescente número de novos conflitos postos a julgamento. 

Pela complexidade cada vez maior das relações humanas, a sociedade está imersa em conflitos de todas as ordens, e não possui autonomia para solucionar os mais simples. Há uma necessidade generalizada de uma decisão proveniente de um terceiro, autorizado pelo Estado (o Juiz), pois a comunidade não consegue dialogar entre si.

Neste âmago, o advogado tem um papel essencial no processo de mudanças pelo qual passamos. Mas nós, advogados, não nos temos feito essenciais em muitas vezes, ao contrário, tiramos a autonomia de vontade dos nossos clientes, na percepção de que podemos assegurar seus direitos. Dessa forma, não validamos o querer do cliente.

Diz o art. 133 da nossa Constituição Federal: “O advogado é indispensável à administração da justiça”. Como nós advogados estamos nos fazendo indispensáveis? Como podemos trazer uma solução mais adequada, equilibrada e efetiva aos conflitos?

Já sabemos por experiência que não basta uma previsão legal para dar eficácia a garantias e direitos fundamentais. Para gerar efeitos no mundo real, precisamos de atitudes, e atitudes imbuídas dos valores constitucionais e do propósito de servir para a evolução de nossa sociedade. Ações conscientes, ações com responsabilidade, com significado e valor humano.

Cito José Roberto de Castro Neves, que em sua obra “Como os advogados salvaram o mundo”, diz explicitamente:

Na faculdade, ensina-se Direito. Não se aprende a advogar na faculdade. O exercício da advocacia tem outras escolas. Em grande parte, advogar é conhecer a natureza humana. Portanto, para melhor ajudar as pessoas, deve-se conhecê-las. As fraquezas e as virtudes de cada um são a chave para bem representá-las.

Nós, advogados devemos aprender a lidar com a sensibilidade humana, através do nosso olhar para dentro, para nós mesmos. Isso não nos deixa fracos, ao contrário, ao nos humanizarmos diante do outro, nós nos fortalecemos de um protagonismo através dos quatro poderes humanos: pensar, falar, agir e SENTIR. No sentir, as máquinas não conseguem nos superar.

A caminhada no saber sistêmico está se estruturando através desse autoconhecimento e autorresponsabilidade, para estar bem para o outro. Através da compreensão do nosso próprio contexto e acolhimento de nossa humanidade, conseguimos construir uma empatia genuína com o cliente, passando a entender os contextos do conflito que ele apresenta.

Não sei se trará todas as respostas aos anseios de nossa sociedade. Mas esta vertente, este novo pensar disruptivo, pode nos guiar a uma forma criativa e responsável de fazer o direito, para trazer respostas mais equilibradas a situações conflituosas. 

O Direito Sistêmico parte da metodologia das Constelações Familiares de Bert Hellinger, filósofo alemão, trazendo um saber das ordens sistêmicas sobre como as famílias e outras organizações se estruturam como um sistema, uma rede interligada de relações humanas. Com este olhar para o outro, o Direito encontra a oportunidade de humanizar-se, possibilitando o entendimento pacífico das partes ou, pelo menos, um primeiro passo para a reconciliação, a paz.

A paz é sim algo utópico, a paz de todos os povos. Mas nem por isso, nós advogados, tradicionalmente litigantes, devemos excluir esse valor de dentro de nós. O conflito é inato ao ser humano, e até mesmo necessário para o evoluir. Porém, podemos escolher a melhor forma de lidar com os conflitos.

Precisamos ampliar nossa ideia de que somente as armas (aqui compreendidas como o processo judicial) são capazes de fazer Justiça, somente um terceiro imbuído do poder estatal é capaz de trazer solução. Esses instrumentos, em muitos casos, não têm dado conta de garantir os direitos fundamentais e tantas demandas sociais. 

Assim, é preciso aliar a estas armas, o olhar e a percepção sistêmicos, o sentir humano, aos princípios da mediação, através do protagonismo das partes e sua autorresponsabilidade em face do conflito. A visão da CULTURA DA PAZ também pode ser um meio eficaz de resolução de conflitos, juntamente com a litigância, necessária em outros tantos contextos.

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