Cultura da Paz e outras coisas mais – por Betina Costa

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Um relato de vocação

Você já percebeu que muitos têm falado bastante sobre propósito? O que pensa a respeito? Achou muito idealista, inalcançável? Sentiu que essa ideia não é para você por inúmeros motivos? Será apenas modismo?

Propósito é uma releitura do que já conhecemos por vocação, chamado, dom, aptidão, talento. O termo vocação ou talento tem origem na cultura cristã, e, por isso, foi muito vinculada a vidas dedicadas à religiosidade, à missão cristã. 

Na Bíblia, há a passagem da Parábola dos Talentos, em que um homem entrega talentos (bens) a três servos, distribuindo em quantidades diferentes. Cada homem cuida dos talentos recebidos de forma diferenciada, sendo que um deles enterra o único talento recebido, com medo de perder o único bem. 

No texto bíblico, também há muitos relatos sobre a missão dos apóstolos, que, por muitas vezes, foram intimidados, por autoridades da época, pelos ensinamentos em nome de Jesus. Mas a fé que nutria o caminhar de tais homens era maior, permanecendo firmes em seu propósito de obedecer a Deus, de levar o conhecimento do amor de Deus às comunidades. 

O propósito que guiava os apóstolos era genuíno, e por isso, se alegravam até mesmo quando injuriados por causa do nome de Jesus.

Se assumir sua vocação, sua missão profética não foi fácil nem para Jesus, vivendo a experiência do desprezo, da rejeição e do julgamento, quanto mais para nós que não pretendemos sermos santos, ao contrário, somos humanos, passíveis de errar muito. 

Vocação não tem cunho apenas religioso, tanto que, hoje, propaga-se a palavra propósito através de uma conexão consigo mesmo, com sua espiritualidade, sem vinculação religiosa. O propósito traz significado, significância às ações, atividades cotidianas e profissionais, nos papéis de pais e mães, filhos, amigos, cidadãos. 

Todos temos um propósito, uma razão que nos motiva e impulsiona de forma congruente. Ao executarmos uma atividade que nos traz prazer, satisfação, que nos coloca em contato com nossas qualidades, podemos identificar nossa vocação. Quando estamos em contato com o nosso eu, sentimos esse chamado. 

Eu acredito que Deus nos convoca todos os dias a assumir nosso papel no mundo, a sermos “agentes do bem” mesmo que apenas em nosso lar ou no nosso trabalho. Deus nos chama a construir uma conexão entre os povos, as nações, entre as pessoas de nossa convivência, cocriando uma rede de amor ao próximo e superando os preconceitos, as divisões e desigualdades. 

Somos todos diferentes, e a rede que nos conecta é o amor, através do respeito mútuo, da convivência sustentável e da interconexão entre tudo e todos. Quando estamos conectados ao amor, evidenciamos em nossos atos a liberdade e o destemor em relação aos julgamentos e críticas dos outros. Tornamo-nos aparentemente vulneráveis, mas dentro de nós uma força de luz aumenta nossa autoconfiança.

Aprendi através dos meus pais e dos pais deles que “A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade. Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo” (1Cor 13,13). E busco incorporar essas bases dentro de mim no meu dia a dia, apesar de não ser nada fácil. Há dias em que a alma é lenta, e precisa de tempo para compreender os eventos, corrigir erros e voltar a crescer.

Acredito na cultura da paz e, por muito tempo, senti-me menor, frágil e ingênua em assumir este perfil idealista, e, ao mesmo tempo, inadequada na advocacia dentro deste contexto social. Aos poucos, venho me fortalecendo em meu propósito de servir à paz dentro e através da advocacia. Mas não é fácil esse trabalho interno de assumir a própria vocação. 

Portanto, não tenhamos medo de críticas quando vêm daqueles que não compreendem o nosso significado maior de estarmos agindo no propósito. Este é o impulso para a nossa missão. Também não tenhamos medo de críticas quando elas vêm daqueles que nos amam, pois são para o nosso próprio amadurecimento. Não deixemos que o medo nos faça enterrar nossos talentos, compreendamos a intenção positiva deste temor para nos colocarmos a serviço do todo, unindo forças com outras vozes, vontades e ações. 

Que possamos encontrar força de falar, fazer, agir, fora da nossa zona de conforto. Quando mantemos a fé, o amor, a luz interior, a chama acesa dentro de nós, fortalecemo-nos para ousar integrar todos esses saberes e comunicar ao outro. “Aspirai aos dons mais elevados”. (1 Cor 12,31).

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