GESTÃO DE CARREIRA NA ERA DA REVOLUÇÃO 4.0

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Não é nada fácil falar de “Gestão de Carreira” em um mundo onde as transformações são cada vez mais dinâmicas e diante das diversas mudanças verificadas nas relações de trabalho e perspectivas futuras frente ao universo digital. Estamos falando da Revolução 4.0, que é um conceito de indústria proposta recentemente e que engloba as principais inovações tecnológicas dos campos da automação e controle da tecnologia, que, segundo pesquisas e especialistas em todo o mundo, revolucionará o mundo das relações do trabalho. A Coluna “Salto Na Carreira” desta semana, entrevista José Augusto Minarelli, conselheiro profissional e CEO da Lens & Minarelli consultoria de Outplacement e transição de carreira, autor de vários livros sobre Carreira e Empregabilidade no Brasil.

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1 S.C – De que forma o conjunto de inovações tecnológicas, chamado de quarta revolução, trará impactos no comportamento e no planejamento do indivíduo na auto-gestão de carreira?

Minarelli – As inovações tecnológicas acompanham outras mudanças da sociedade. Carregam junto com elas transformações na forma como as pessoas interagem entre si. A mudança no jeito de trabalhar está provocando grandes impactos no comportamento das pessoas. Para a carreira, a velocidade de mudança proporcionada pela velocidade dos avanços da tecnologia traz ameaças e oportunidades profissionais. Neste cenário será necessário que os profissionais façam periodicamente upgrades do software mental, praticamente na mesma velocidade que as empresas de tecnologia fazem o upgrade de seus softwares. Isso exige que as pessoas revisem conceitos, aprendam a utilizar os recursos tecnológicos, atuais e futuros, compartilhem conhecimento e informações e aprendam a trabalhar conectadas. Sem dúvida, a revolução 4.0 trouxe desafios novos para quem desenvolveu sua carreira nas ondas das revoluções anteriores.  A realidade tem se mostrado cruel para quem estiver ou vier a ficar desatualizado, o destino será a periferia no mercado de trabalho onde estão os trabalhos ou funções mais simples com menor remuneração. Ou o desemprego. Para os profissionais “analógicos” os desafios exigem mais adaptações. Para os nascidos ou alfabetizados no mundo digital é mais fácil. Porém, os dois tipos de profissional possuem conhecimentos e experiências que podem ser usadas para aproveitar as oportunidades desse “novo mundo”, que são imensas.

2 – S.C – Como é possível minimizar esses impactos econômico social adaptando negócios e funcionários à nova realidade?

Minarelli – Sofrerão menos e até obterão vantagens, os profissionais e as organizações abertas às inovações e que forem flexíveis para sucessivas adaptações que terão que fazer. Educação, treinamento, autodesenvolvimento são as ações institucionais dos governos e empresas, bem como, pessoais dos indivíduos que desejam ter êxito em suas profissões e carreiras. Todos precisam fazer investimentos de tempo, dedicação e dinheiro na melhor formação e/ou evolução profissional.

3 S.C – Na reunião de Davos apresentou-se uma projeção de 7 milhões de profissionais que perderão o emprego até 2020, por falta de capacidade técnica e tecnológica para ocupar os novos postos de trabalho.  Como pensar e cuidar, a médio e longo prazo, das estratégias para manter-se empregável?

Minarelli – Para manter-se empregável é preciso desenvolver a condição requerida para entrar, permanecer, progredir no mercado de trabalho e enfrentar as constantes transições que aparecerão. Será preciso ter atitudes e habilidades necessárias para este novo mundo. A “Empregabilidade 4.0”. Além dos seis pilares clássicos de Empregabilidade que divulguei no meu livro “Empregabilidade”, o profissional deve ter curiosidade para fazer o melhor uso no seu dia-a-dia das facilidades que um mundo mais conectado, aplicativos e máquinas inteligentes proporcionam.

Os 6 pilares da empregabilidade são:

1 – Adequação vocacional;
2 – Competência profissional;
3 – Idoneidade;
4 – Saúde física e mental;
5 – Relacionamento;
6 – Reserva financeira.

Para manter o nível de empregabilidade no alto, é preciso saber gerenciar a carreira de forma que todos os 6 pilares estejam em equilíbrio. Costumo usar a analogia de uma mesa com 6 pés. Se um dos pés é mais curto que o outro ela fica bamba.

4 SC- Quais as habilidades fundamentais, tanto comportamentais quanto técnicas, são consideradas importantes para esse novo cenário?

Minarelli – Cada profissional precisa se dar conta que é um prestador de serviço que prove solução para quem tem necessidades ou problemas para resolver. Qualquer que seja o cenário ou “versão do mundo” – 4.0; 5.0; 6.0 –  o profissional precisa ser conhecido, respeitado e capaz de vender o seu serviço. É importante superar o preconceito sobre o ato de vender e desenvolver essa habilidade para garantir espaço no mercado de trabalho. Ser e mostrar-se capaz de descobrir problemas e necessidades das pessoas com quem trabalha aumenta o seu valor comparado aos concorrentes.

5 S.C – Quais as atitudes empreendedoras o indivíduo precisa ter para ajustar a sua bússola pessoal e manter-se competitivo?

Minarelli – Cada profissional é um prestador de serviço para os outros. Não basta ser um bom técnico em sua profissão e saber utilizar eficientemente os recursos tecnológicos. É preciso entender das relações de troca que ocorrem entre as pessoas que constituem o mercado de trabalho. As funções básicas da mercadologia precisam ser compreendidas e praticadas pelos profissionais. São elas: (1) pesquisa de necessidades (2) produção/inovação dos produtos e serviços, (3) comunicação, propaganda e venda. A primeira função é a que identifica as novas demandas. Ela requer sintonia, flexibilidade e prontidão para adaptar o seu serviço e a forma de prestá-lo às demandas que mudam constantemente. O olhar para as necessidades e problemas dos outros é a bússola que pode nos conduzir para o sucesso no exercício profissional ou empresarial.

6 S.C – A máquina substituirá o homem? Que profissões são mais vulneráveis neste contexto?

Minarelli – Não irá substituir. Não por completo, pelo menos… Revolução tecnológica e seus instrumentos ocorreram diversas vezes na história e promovem inovações e transformações, sempre complexas no mundo. Portanto, a questão que se coloca não é se vai ocorrer, mas quando vai ocorrer a inovação que poderá substituir a atividade feita pelo homem. O Flash Gordon tinha um relógio que lhe permitia falar à distância, fazer cálculos, abrir portas… e ler as horas. Era um instrumento multiuso fantástico. Esse relógio só existia na ficção científica, hoje existe de fato e pode ser comprado nas lojas físicas ou online. Com a internet das coisas, dos dados, das pessoas e dos serviços, tudo que pode ser conectado ou automatizado para facilitar a vida das pessoas está sendo. Atividades repetitivas, de risco, que requerem força física, vão ser substituídas por sistemas e aplicativos. No passado havia ascensoristas para conduzir elevadores, operários nas linhas de montagem de automóveis e aviões. Hoje, cada pessoa pilota o elevador e os robôs trabalham regularmente, dia e noite, nas montadoras. Existem outras transformações em curso. A mais próxima de nós é no transporte por taxi. Em poucos anos os taxistas não estarão brigando mais com os aplicativos e sim com os taxis sem motorista. A antiga profissão deixará de existir ou passará por transformação. Na saúde, muitas cirurgias, exames e até diagnósticos, já podem ser feitos com pouca interferência humana. Muitos processos onde não se imaginava esta possibilidade estão sendo automatizados. A incidência maior da substituição do homem por máquinas ocorrerá nas atividades industriais e agrícolas. Nas atividades de serviço ainda predominará o atendimento humano potencializados ou mesclados com o uso dos recursos tecnológicos.

7 SC – Como definir gestão de carreira na indústria 4.0?

Minarelli – Um profissional deve cuidar de sua carreira como gestor cuida de uma empresa. Na realidade cada profissional é uma empresa individual de prestação de serviço. Costumo dizer que uma empresa de serviço, para ter sucesso, precisa “prestar um serviço que preste com presteza, para ter prestígio”. Isso também vale ao profissional. Como o mercado é dinâmico e competitivo, o “dono da empresa” deve estar atento às necessidades mutantes de seus empregadores ou clientes para oferecer o que é demandado, usando todos os recursos disponibilizados pela revolução 4.0.

8 S.C – Como os líderes de RH, Escolas, Universidades e Governo do nosso país podem conjuntamente planejar estratégias mais eficazes para adequar a força de trabalho ao cenário futuro?

Minarelli – Aumentar a sintonia dos programas de formação profissional às necessidades dos empregadores ou clientes é uma das formas. Isso significa aproximar a teoria da prática. É bem verdade que um sistema de ensino ou a escola não pode atender às demandas específicas do mercado, por isso o acabamento da formação ocorre no contato com a realidade do trabalho. Para isso os programas de estágio, de intercâmbios, os trabalhos de férias e atuações como voluntários precisam ser estimulados e oferecidos pelas empresas, organizações sociais e governo, para que os estudantes ou jovens profissionais consigam obter melhor capacitação que lhes permita serem “prestadores de serviço que prestem”.

Sirley Carvalho, Mestre em Psicologia Organizacional e Coach de Carreira.

 

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