Nos curamos no encontro – por Betina Costa

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Muitas vezes, tememos falar sobre nossos sentimentos, com receio do que o outro vai pensar, julgar sobre nós. Esse temor é resultado do padrão cultural em que nos inserimos, de competição, de demonstrar força, beleza, equilíbrio, riqueza.

O outro nos julga pelas aparências, pela superficialidade, pelo externo e pelas ações, o que está acessível ao outro, ainda mais em tempos de instagram, facebook, redes sociais. Essa é uma perspectiva rasa, vazia, e que pouco contribui para nosso crescimento e dos que estão ao nosso redor. Essa é uma perspectiva rasa porque divide, separa, segrega por razões e interpretações a partir da nossa visão. 

Quem está certo? Quem está errado? O julgamento parte da nossa construção do mundo, como fomos criados, o que herdamos de nossos ancestrais, a cultura e o tempo em que vivemos. E isso é relativo, é parcial, retratando apenas uma fotografia de um momento, repleto de elementos circunstanciais. Podemos mudar a pergunta para: como podemos aprender com isso? Como melhorar?

Somos apenas um grão de areia diante de toda a existência humana. Quem somos nós para termos a certeza de tudo? Quem somos nós para sermos detentores de verdades indiscutíveis? Quem somos nós que nos achamos humanos indestrutíveis, poderosos, sábios, belos, eternos? Nessa perspectiva, não somos, mas estamos. E como todo estado, passa.

Como ondas no mar, oscilamos entre extremos de estados, conceitos, padrões, culturas, significados, uns tentando achar um norte, outros deixando a vida levar. Quanto mais distantes de nós mesmos, mais as ondas fortes nos afetam, as influências do mundo externo, as interferências e obstáculos. 

Para nos tornarmos o que somos, precisamos olhar para dentro, onde mora a verdade. Ao achar esse centro, as ondas permanecem, com uma diferença: passamos a ter consciência em como elas irão nos afetar. Encontramos luz para discernir qual atitude tomar e força para agir, passo a passo, lentamente, congruente com os planos sonhados. 

Essa jornada de autoconhecimento pode parecer dolorosa, muitas vezes o é. Porém, uma hora ou outra, todos nós somos chamados a caminhar olhando para si, quando sentimos um vazio mesmo diante dos bens materiais acumulados, das inúmeras amizades construídas, da família estabelecida. Uma inconformidade nos inquieta. Uma ansiedade nos assola. Ou, até mesmo, somos surpreendidos por um adoecimento nosso ou de um familiar. Será apenas efeito dos novos tempos, da tecnologia, dos alimentos? Será apenas isso? 

Considero um sintoma, e como tal, precisamos, então, buscar as causas e não remediar e fingir que nada acontece aqui dento. Olhar para dentro de nós nos auxilia a encontrar um sentido maior para a vida. Essa busca pelas causas do sintoma pode se dar de inúmeras formas, meditação, acompanhamento psicológico ou psiquiátrico (a depender do caso), terapias integrativas, ou grupos de apoio. Inúmeras possibilidades. 

Então, volto à reflexão do parágrafo inicial, que retrata o medo do julgamento. Esse medo que envolve tornarmos vulneráveis diante do outro, a vulnerabilidade em falar sobre nossos sentimentos, nossas dores. No entanto, quando partilhamos com o outro, uma força indescritível nos toma. Apenas aqueles que ousam experimentar abrir seus corações e histórias ao outro, conseguem compreender a dimensão desta força. E, simplesmente, nós nos curamos no encontro com o outro, e encontramos nós mesmos. Todos somos um. 

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