O que é o pensamento sistêmico – por Betina Costa

49

Como o pensar sistêmico nos auxilia a compreender melhor o mundo – Coluna Cultura da Paz e outras coisas mais

Vamos falar um pouco o que é o pensamento sistêmico? Não é possível responder essa questão em tão breve artigo, mas levantarei alguns pontos que este pensar disruptivo traz em relação ao pensamento mecanicista/cartesiano. 

Por que disruptivo? Porque não segue o padrão de inteligência lógico-linear, do dualismo do certo e errado baseado no racional e na boa memória. Nossa geração foi criada através de uma educação baseada na concepção mecanicista de mundo, fruto da Revolução Industrial. 

Em brevíssimo resumo, a essência de nossa construção de conhecimento se dá através da análise das partes de um conteúdo, ciência, organismo ou sistema, separando o todo para entender como “as coisas” funcionam. A partir deste pensamento cartesiano, passamos a compreender o mundo e o ser humano como um conjunto de engrenagens, de peças, como uma máquina. 

O método cartesiano foi, e ainda é, essencial para a evolução de toda a humanidade, como constituímos o saber, criamos a tecnologia. Mas os cientistas reconhecem hoje que não é suficiente para compreender o funcionamento dos organismos, das partículas e átomos e, também, as relações humanas.

O pensamento sistêmico envolve, por sua vez, a habilidade de observar a informação, o mundo, indagar acerca de algumas verdades postas, reciclar antigos padrões ou crenças, algo vital para o futuro da humanidade. Precisamos parar, pensar, e reaprender a sentir, através de uma habilidade que vem sendo apontada como crucial para essa nova era: a curiosidade. 

O conhecimento posto não é estático, e para sempre inquestionável. Se algo não funciona bem, é preciso entender o porquê. Crises ocorrem para nos mostrar oportunidades de fazer diferente, aprender novas formas de pensar e fazer, para, somente assim, evoluir. Devemos nos tornar eternos aprendizes para crescer de forma sustentável. 

Essa nova percepção científica parte da observação que “o mundo material é uma rede de padrões de relações inseparáveis; que o planeta como um todo é um sistema vivo autorregulador” (Fritjof Capra e Ugo Mattei). E nessa rede interligada de ações e reações, interações sociais, há uma infinidade de significados que não podem ser encaixados de forma absoluta nos conceitos de certo ou errado.

Depende. Sim, depende do contexto em que um comportamento está inserido, depende das relações entre pessoas, depende de incontáveis fatores que interagem para a compreensão de uma questão, situação, problema, conceito, significado. Uma questão não pode ser medida e enquadrada de forma estática em uma descrição única e invariável, deve ser mapeada na compreensão do todo e das partes que a formam. 

O ensinamento da ciência hoje está formulado como um corpo organizado de conhecimentos e reproduzido nas escolas e universidades como verdades postas. Pouco se oportuniza, através desta forma de pensar, uma margem à interpretação humana, ao questionamento dentro da educação tradicional. E aprendemos a ser copiadores e reproduzir os conhecimentos que nos foi repassado através de gerações. 

Nossas crianças aprendem nas escolas como responder corretamente questões subjetivas, sem ter margem a colocar sua própria linguagem ou interpretação, pois qualquer resposta que não se alinhe com o gabarito da prova é reprovada pelo professor. Digo isso por experiência própria, porque tenho um filho de 8 anos que faz o 3º ano fundamental. 

Em nossa educação parental, também é assim: não permitimos muitos questionamentos, ficamos de “saco cheio” com tantas perguntas, não admitimos conflitos, fechamos os olhos para as tristezas dos filhos, poupando-os de descobrirem os vários sentimentos e emoções. Respondemos seus questionamentos com um simples: “porque sim! Porque não! Porque a vida é assim!”, gerando um conformismo.

E, assim, entramos no automatismo. Desconhecemos nossa forma de pensar, calamos nosso sentir, impedimos questionamentos para melhor aprEEnder (destacando os dois Es) a informação dada nas escolas, utilizamos nosso raciocínio para decorar fórmulas, memorizar normas, e somos adestrados a copiar respostas padrões, treinados a ficarmos quietos. Só que, para isso, teremos as máquinas, a Inteligência Artificial. 

Essa é uma parte do padrão cultural em que estamos inseridos, fruto de uma construção lenta e gradativa, necessária para nossa evolução social durante milhares de anos. Mas devemos ter consciência de que não atingimos, nem tão cedo atingiremos, uma maturidade intelectual, sem olhar para o emocional. É preciso alinhar o pensar com o sentir para descobrir novas formas de conviver, aprender e evoluir, estando abertos, indagando, tendo curiosidade e permitindo sentir o que faz sentido a cada um, conforme valores de humanidade.   

Essa reflexão sobre o que sentimos diante de certas verdades nos ajuda a compreender questões sociais e cotidianas, não racionalizar tanto e perceber que de fato as coisas não são como imaginamos, ou mesmo percebemos. 

 “Um ser humano é verdadeiramente grande quando se torna um eterno aprendiz para crescer de forma sustentável. Como? Mapeando sua história, reciclando seus erros e conflitos, superando sua necessidade neurótica de ser perfeito, crescendo diante da dor, gerenciando seu estresse, tendo metas claras em sua história…” (Augusto Cury)

Deixe o seu comentário