Superando medos com um propósito – por Betina Costa

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Encontrei-me um dia desses com uma professora de faculdade que não via há tempos. Ela me falou o quanto eu estava diferente da época em que fui sua aluna, sempre muito discreta, tímida. A timidez e a insegurança faziam parte de mim e eu me identificava a ponto de achar que era tímida e insegura. Anos se passaram, mais de uma década, e aquela aluna que não tinha coragem em levantar a mão para perguntar em sala de aula, hoje está palestrando. 

“Como assim? Onde veio essa coragem de falar em público?” Uma colega de curso também veio me perguntar como foi esse processo, pois ela tinha muita vontade em falar, mas seu entrave era enorme.

Eu não sei ao certo quando ou qual a técnica que utilizei para desbloquear a fala, foi um processo lento e gradativo, sob a minha perspectiva. Não fiz curso de oratória nem de palestrante, ainda farei. Priorizei outros cursos de autoconhecimento para chegar a uma conclusão do que hoje me move a sair da zona de conforto, a me inspirar e a enfrentar os medos e julgamentos: PROPÓSITO. 

Cada um de nós nasce com dons, talentos, a serem desenvolvidos e utilizados na realização dos nossos sonhos e desejos, trabalhos, ou mesmo, missões de vida. Nossos talentos podem ser propulsores de transformação pessoal, familiar e social, quando colocamos em nossas ações um propósito genuíno, um significado nobre. E quando envolvemos o coração na realização do que acreditamos, este fazer é potencializado. 

Foi assim com o Direito Sistêmico, a Advocacia Sistêmica, a PNL, e a cultura da paz. Para mim, o Direito, área que escolhi me formar, passou a ter mais sentido e significado através do pensamento sistêmico. Como advogada, não sentia que o “Direito”, entendido como a lei, vinha realizando seu propósito, sua finalidade de assegurar os direitos dos cidadãos, diante da criminalidade, desrespeito às leis, processos judiciais infindáveis, injustiças etc. Entrei numa crise na profissão, um desgosto e falta de motivação.

O que acontece é que vamos nos entorpecendo com notícias de corrupção, mortes, agressões, achando normal e incorporando no nosso dia a dia toda essa negatividade. Ela nos afeta consciente e inconscientemente, e não percebemos que estamos adoecendo física, mental e espiritualmente. Muitas vezes, buscamos nos alienar acompanhando as aventuras dos personagens das novelas (ou da Netflix) para diminuir o veneno dos noticiários, ou vivendo um mundo de ilusões do ego em redes sociais, atrás da tal felicidade. 

Quando li a obra de Sri Prem Baba, “Propósito – A coragem de ser quem somos”, despertei para aspectos fundamentais da minha vida e a importância de ter um significado maior nas ações, um propósito. O autor fala que “há ocasiões em que surgem sentimentos difusos e crises de pânico, mas existe sempre um sentimento de desencaixe, uma falta de sentido na vida, uma tristeza sem causa aparente. A pessoa não sabe explicar porque está triste, mas segue fazendo suas coisas de modo automático”.

Eu passei a perceber que não fazia o que queria, não sabia o que queria, e me sentia simplesmente frustrada com “não sei o que”. Aos poucos, a partir das propostas do livro, aprendi a ter uma atitude mais curiosa a respeito dos meus estados emocionais, fui me desprendendo das notícias que me contaminavam o dia, e focando no que genuinamente me trazia prazer. A família reclamava que eu ainda estava a acompanhar as redes sociais, só que meu foco estava nas pesquisas. Passei a usar essas ferramentas a meu favor, absorvendo informações positivas e que se alinhavam mais aos meus interesses.

Fui tirando de “dentro da caixinha” os sonhos que um dia havia guardado, por ter me achado ingênua demais. Derrubei muros que havia construído para me proteger. Quando escondemos nossos dons por medo de perdê-los, acabamos por não usar todo nosso potencial para empreender e não prosperamos. Vamos incorporando CRENÇAS, como verdades inquestionáveis, sem nem ousarmos refletir sobre elas. E esses padrões acabam bloqueando nossas ações, inspirações e aspirações (desejos da alma), por medo, vergonha, comodismo e conformismo. 

Depois de tanto mexer nesses sentimentos e pensamentos limitantes, eu digo que consegui ver além do muro, saindo da zona de conforto, e me permitindo tentar diferente, errar e, quem sabe, acertar. Foi quando eu descobri que amava escrever e falar em público, partilhar o que andava e ando estudando, não só quanto ao Direito, mas sobre autoconhecimento. Quem sabe alguém se identifica com alguma questão que abordo e assim posso ajudar essa pessoa? 

Mas este movimento requer ir para o mundo com coragem e convicção para enfrentar o desconhecido e não sabemos o que nos espera. Quando imaginamos que está tudo bem, alguma coisa acontece para abalar essa autoconfiança. A vida nos traz desafios o tempo todo, sejam eles resultados de nossas escolhas e atitudes, sejam eles programados ou inesperados. Somente quando assumimos a responsabilidade de nossos atos sem culpar os outros, sem culpar os pais, os filhos, o cachorro, o mundo, é que podemos caminhar até o muro e superar os limites desse muro para alcançar o objetivo maior da alma.

É preciso encararmos esses desafios como instrumentos de aprendizagem, para podermos entender qual propósito que nossa alma possui e quais são nossos dons para empreender esse sonho. Este processo é cíclico, passamos por ele o tempo todo. O medo também não vai embora, mas aprendemos a domá-lo!

Um trecho de uma música da minha infância me vem à mente, em que somente agora posso perceber a profundidade da letra e como reflete este pensamento de que é preciso transcender. “O menino caminha, e caminhando, chega no muro / E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está… / E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar / Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar / Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar… / Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá / O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar / Vamos todos numa linda passarela / De uma Aquarela que um dia enfim, descolorirá…” (Aquarela – Toquinho).

 

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